quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Manic Pixie Dream Girl: gênero machista ou exagero?

quarta-feira, 5 de novembro de 2014


Garoto conhece garota, se apaixona por ela e muda sua vida a partir desse encontro. Some a isso a personagem feminina ser irresistivelmente fofa, engraçada, diferente, praticamente uma Zoey Deschanel way of life. Dá para pensar em 300 filmes ou mais com esse mesmo enredo e um item em comum: a Manic Pixie Dream Girl. O crítico de cinema Nathan Rubin o usou para definir a personagem de Kirsten Dunst em Tudo acontece em Elizabethtown como "aquela criatura efervescente e superficial, existente apenas nas imaginações febris de sensíveis escritores e diretores, cujo único objetivo é ensinar jovens reprimidos e sorumbáticos a abraçar a vida e seus infinitos mistérios e aventuras". 

O termo pegou e se tornou referência para a personagem detalhada ai em cima, alguém que muda a vida do protagonista mas não tem vida própria. Ela é alegre, esfuziante e continua assim durante toda a história ou tem pequenas quedas que são importantes para o desenvolvimento do caráter masculino. Sabemos que ela tem certas características (Natalie Portman em "Hora de Voltar" tem um hamster e é mentirosa patológica, e só) mas não aprendemos quem ela é ao longo do filme, sua primeira impressão vai ficar porque é o que importa para uma MPDG. O problema que esse ideal masculino da perfeição feminina como guia da mudança de vida do protagonista foi se tornando um termo pejorativo ao longo do tempo - a ponto de Nathan ter vindo a público para pedir desculpas por ter cunhado o termo





Em "Ruby Sparks: A Namorada Perfeita", o Calvin de Paul Dano só reescreve o papel de Zoe quando ela começa a demonstrar uma personalidade que não deveria ter, deixando de ser rasa e unidimensional - coisa que não acontece em clássicos com MPDG - e é ai que a história começa a dar errado. Apesar do filme ser uma crítica a esse tipo de cinema e mostrar que as coisas não deveriam ser assim a as personagens femininas deveriam ter voz própria para narrar suas histórias (alô teste Bechdel!), a roteirista e protagonista Zoe Kazan se nega a fazer referência, dizendo que entenderam errado a personagem, "Eu acho que é mais de um termo que se aplica à utilização crítica do que em uso criativo. É uma maneira de descrever personagens femininas de forma redutora. É basicamente misógino". 

O exagero do termo

Dai ficou pejorativo e resolveram que alguns personagens deveriam ser MPDG mesmo não sendo. Annie Hall de Diane Keaton, nunca será um exemplar do gênero assim como Holly Golightly também não. Summer de "500 Dias com Ela" não é (Tom cria as expectativas, Summer nunca as cumpre), mas por sua intérprete acaba em todas as listas. Sobrou até mesmo para a Dorothy de "Mágico de Oz", que com sua alegria mudou a vida do Leão, Espantalho e homem de Lata. Aparentemente a onda MPDG acabou - talvez por uma certa presença maior de mulheres e a atenção que adaptação de livros e distopias tem recebido da industria cinematográfica - mas continua registradas em filme excelentes. Não é porque a Penny (Kate Hudson) de "Quase Famosos" é claramente uma Manic Pixie Dream Girl que a produção deixa de ser menos legal.



O problema com esse termo é que ele é a personificação do desejo masculino sobre um personagem feminino, que não mostra a realidade e só se preocupa com o que ele tem a acrescentar ao protagonista. É um exercício de egoismo dos roteiristas e diretores desse tipo de longa, em que a mulher pode ter seus problemas, mas não são eles que são importantes, não é sobre sua história e por isso, eles não fazem diferença. Ele traz a mensagem que as mulheres não são protagonistas da própria história, elas serão sempre a personagem secundária - e isso somente se responderem a expectativa do personagem masculino da vida real, quem quer que ele seja. Para os homens, o caminho é inverso, eles serão os perdedores se não encontrarem a "musa" de seus sonhos, aquela que vai guiar para a vida e transformá-lo em alguém que ele sempre quis ser. Sejamos apenas o protagonista da nossa vida que tá bom.

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