sábado, 22 de novembro de 2014

Você tem direito de discutir a aparência de outras pessoas?

sábado, 22 de novembro de 2014


Na mesma semana que cientista da Agênci Espacial Europeia Matt Taylor entrou na polêmica com sua camiseta, outra história sobre roupas e gênero chamou minha atenção. O apresentador Karl Stefanovic confessou que usou a mesma roupa durante um ano inteiro (mudando apenas a gravata) e ninguém percebeu, ao contrário de sua colega de bancada Lisa Wilkinson, que recebe mensagens diárias sobre o corte errado de uma peça ou uma cor que combine com sua pele, Karl passou despercebido por 12 meses.

Na história de Matt Taylor, parece pra mim que, como li em um artigo, foi um caso de um "nerd nerdano". Um cara que colocou uma camisa pra lá de duvidosa em um momento que o mundo estava com olhos na operação Rosetta - mas abriu uma discussão edificante sobre porque mulheres não estão na ciência na mesma quantidade de homens, e quão misóginos chegam a ser alguns ambientes de trabalho. De próximo ao assunto do apresentador australiano, só o fato de como somos sedentos para observar alguém e dizer quão bonita ou inadequada ela é (e por consequência jogar os assuntos reais para escanteio).

Apesar de não acompanhar com afinco, gosto de moda e de ver roupas de premiação, saber nomes de estilista e etc., mas eu sei que estamos levando essa loucura a um patamar tão grande, que todo tapete vermelho temos aquele momento em que atrizes e cantoras são obrigadas a falar vários minutos sobre seu vestido enquanto os atores e cantores falam sobre seu trabalho - o que é o real alvo de toda a classe artística quando comparece a esses eventos.

Há algumas semanas, Poliana Abritta estreou no "Fantástico" e em vez de opinar sobre a atuação da jornalista, as redes sociais explodiram com gente julgado a tatuagem da apresentadora. Em um passado não tão distante, uma técnica de fonoaudiologia de Patricia Poeta entrou no ar por engano e Willian Bonner teve que usar espaço do Jornal Nacional para explicar que a "bufada" da apresentadora era um exercício vocal. Ser julgado pela aparência é um mal da sociedade atual, e as mulheres sofrem - e muito - com precisar usar o cabelo certo, a roupa certa e o comportamento certo para ser bem sucedida na vida (mas afinal, o que é boa aparência?), e todas essas exigências padronizadas que aos poucos estão sendo discutidas e perdendo o mito de verdade absoluta.

Mas voltando a Karl Stefanovic, o apresentador usou o mesmo terno durante um ano e ninguém reparou e explicou que fez isso porque "as mulheres são julgadas de forma muito mais severa e profunda pelo que fazem, pelo que dizem e pelo que vestem. Usei o mesmo terno em frente às câmeras por um ano – salvo em alguns raros momentos. Sou julgado pelas minhas entrevistas, pelo meu senso de humor – ou seja, pela maneira como eu desempenho minhas funções, basicamente. Enquanto isso, as mulheres são normalmente julgadas pelo que estão vestindo ou por seu cabelo". Então da próxima vez que se pegar pensando/falando mal da roupa e cabelo de alguém, pense no que ela poderia te passar além do apelo visual. Fazer o exercício é penoso mas é gratificante, mesmo que não dê certo em 100% das vezes, e melhora muito mais sua relação com o mundo.

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