quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Quando o meu redor começou a "embranquecer"

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Nasci e fui criada no subúrbio e vi as pessoas embranquecerem ao meu redor. Explico, e aqui abro uma grande aspas sobre a história do Brasil: apesar da alforria dos negros, os ex-escravos não tinham uma base para ser livres. Sem ser escravos, eles não podiam morar na casa do patrão, sendo ex-escravos, sofreram com o preconceito de empregadores e a maioria foi trabalhar em serviços mal remunerados. Foram então para lugares mais baratos de se viver: favelas ou locais afastados do centro (e para quem não consegue fazer a ligação, vai a história do menino negro que disse que não poderia ser médico).

Eu moro nessa segunda opção, uma cidade com quase 60% da população negra, de acordo Censo em 2000. Por isso, me acostumei a ver brancos e negros pela rua em boa quantidade, fui estudar em um colégio e minhas fotos do jardim de infância são uma mescla de amiguinhos brancos, morenos e negros, bem Brasil e sincero. Fiquei nessa mesma escola do bairro por dez anos, cheguei no ensino médio e mudei para uma instituição no centro. A proporção começou a cair, não era mais uma igual, pessoas negras na minha sala deveriam ser 30% ou menos, número que caiu drasticamente quando entrei na faculdade.



Me esforcei como louca para passar em uma faculdade pública e fui uma das 120 pessoas a entrar no meu semestre na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Talvez dez dessas fossem negras, como eu disse, um embranquecimento ao meu redor. Nessa época eu era contra cotas raciais porque vinha desse meio miscigenado, de gente pobre de todas as cores e sofrendo para chegar ao fim do mês, e mesmo sem saber exatamente como funcionava, condenava em favor do "também existe branco pobre", que eu conhecia aos montes. Hoje peço desculpas por isso.

Já foram mais de dez anos de cotas raciais, e a mesma miscigenação que tive no jardim de infância está bem longe de se repetir. Conversei isso com uma amiga negra há um tempo e ela me disse que reparava isso em todos os ambientes que ela entrava, era sempre ela e mais um ou dois negros em troca de muitos brancos. Vamos pensar seriamente nisso, em uma país quase 50/50, uma proporção desigual como essa é escandalosa.

Temos 18% de médicos negros, 1,4% de negros juízes, e 8,8% de negros em universidades (números que quadruplicaram nos últimos dez anos mas que continuam a ser ridículos) e temos 50,7% da população brasileira negra e parda de acordo com o Censo 2010. Então hoje sou a favor de cotas raciais e mesmo assim posso me preocupar com a educação de base sucateada porque uma coisa não impede a outra - só depende do governo fazer algo a respeito e não sentar atrás da mesa achando que o dever está cumprido apenas por ter cota. Mas reclamar da cota também não vai melhorar a educação, mas vai trazer uma sociedade mais colorida, uma mais igualitária, nem que seja pela força da cota e a esperança de vida melhor que ela trás para muitas pessoas, incluindo o menininho do texto do Brasil Post, que se o destino permitir, vai se tornar um médico dos bons.

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