quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Transição capilar e o incrível documentário de Chris Rock

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015


Na última semana, o vídeo da transição capilar de Zina Saro-Wiwa voltou a aparecer na minha timeline. A artista raspou a cabeça para um vídeo arte pensando em voltar para as extensões quando o cabelo crescesse um pouco, mas quando ele começou a crescer ela percebeu que não lembrava mais como ele era depois de alisar por anos. O processo, a tal transição, é deixar o cabelo crescer - cortando ou não a parte com química - para que ao final, consiga os fios naturais de volta, uma ação maravihosa para muitas mulheres que gastaram anos, dinheiro, muito trabalho (e ferimentos) para conseguir o tal "cabelo bom", o liso.

Primeira coisa: não existe cabelo bom ou ruim, existem tipos de cabelo, que precisam ou não de tratamentos. Vou contar uma histórinha para continuar: nasci com cabelos lisos que começaram a ficar cacheados, no auge da adolescência eu tinha muitos cachos, que eu gostava muito apesar do trabalho para cuidar. Essa era a época dos cabelos lisos chapados, alisamento japones cheio do formol que não sabíamos o que era exatamente. Odiava ir ao salão para cortar o cabelo nessa época porque ouvia o discurso de "como ficaria linda com o cabelo liso, como seria mais prático, como ia 'domar' meus cachos". Sempre negava, e depois de vencer pela canseira iamos para o segundo round: "produtos para tirar volume faria maravilhas para seus fios". Ficava pensando em porquê essas pessoas tinham problema com volume, volume era bonito, se eu gostava, porque eles implicavam?



Demorou algum tempo para eu entender que o que acontecia nesse salão era uma fração do que acontecia e ainda acontece com mulheres negras todo dia, é basicamente um preconceito inconsciente (ou não) de que aquela pessoa com cabelo cacheado ou crespo tem raízes africanas, e consequentemente com a história negra da escravidão, ao contrário do liso-europeu-colonizador-bem sucedido. Pode parecer radical, mas é exatamente isso - para ler mais sobre, tem artigos ótimos no Blogueiras Negras e esse da revista Forum.

Não é que eu esteja acusando quem alisa de não valorizar suas raízes, etc, etc - o que seria até hipócrita da minha parte já que tinjo o cabelo há mais de dez anos - mas já parou para pensar na química pesada usada para mudar o formato da fibra capilar? Uma das minhas melhores amigas passou por essa transição, foram quase dois anos entre parar de alisar, abrir mão da chapinha e saber como tratar o próprio cabelo. Foi dessa época que vi o documentário do Chris Rock, "Good Hair":


A filha do comediante perguntou ao pai porque ela não tinha "cabelo bom" e ele resolveu criar um documentário para descobrir o que "cabelo bom" significa para a comunidade negra. Durante todo o longa, Chris mostra entrevista com famosas, visitas a salões, conversa com cabeleireiras e - o mais chocante para mim - fala com químicos. Dai vem a cena do trailer da substância corrosiva da lata de refrigerante (e que em outro momento também destrói um peito de frango). Assisti isso e e logo depois corri para um abraço na minha amiga da transição, que contou que havia largado aquilo por não aguentar mais as queimaduras, alergias e todas as reações que os relaxantes, alisantes e etc. deixavam na pele.

Em comum em todos os relatos das mulheres em transição, é a questão de fazer as pazes com o próprio cabelo. A industria cosmética ganha milhões através do desejo de transformação das mulheres e tem dado atenção para um público que até alguns anos era tratado apenas como "compradores de alisantes". Hoje, já é possível encontrar tratamentos bons para cabelos crespos e cacheados e deixá-los ao natural (e mudá-los quando quiser, com a ajuda de secador e chapinha, sem mudar e comprometer a estrutura da fibra).

Mulheres, empoderem-se e se permitam conhecer-se ao natural. Pode acontecer de decidir que não, que o alisamento é sua melhor opção - de novo, pinto o cabelo há dez anos porque eu decidi que sou ruiva e nasci com a cor de fios errada. Conheço gente que nutre o mesmo sentimento pelo cabelo liso - mas pode ser que você perceba que seu estilo natural é lindo e fácil de manter. Permitam-se tentar, é disso que se trata a vida.

Sobre "Good Hair", ele está disponível no Netflix, já viram?

4 comentários:

  1. Fico TÃO feliz em ver a quantidade de incentivos e apoio que as pessoas em transição andam recebendo de uns tempos pra cá!
    A minha foi "abortada" uma vez porque encontrei uma caricatura na carteira da faculdade. Ter o cabelo natural é maravilhoso, mas a transição em si... Tomara que essa consciência da questão do cabelo "bom" já seja algo mais consolidado nas próximas gerações, para ninguém ter mais que sofrer com isso.

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  2. Sensacional seu texto. Voltei com meus cachos há uns 5 anos, e não me arrependo um dia sequer. Espero que outras garotas possam sentir a liberdade dos fios naturais e que se amem assim, e nunca achem que existe cabelo ruim. Compartilhei e compartilharei onde e quando puder, necessitamos desse pensamento.
    Vou seguir seu blog também =)
    Bjo!

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    1. Opa, obrigada! Sim, quanto mais gente poder se livrar de químicas e retoques e etc, melhor.

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