sexta-feira, 19 de junho de 2015

O sapato da discórdia em "Jurassic World"

sexta-feira, 19 de junho de 2015


A quarta parte da franquia é ótima, emula muito do filme original e de quebra traz a série para o cinema atual, mas sabe do que andamos falando? Sapatos. Para quem ainda não viu, temos Claire Dearing, a diretora do parque, control freak e que passa o filme inteiro em cima de um scarpin nude de bico redondo. Ela corre, pula, foge, dirige e um bando de outras coisas sem perder o sapato, e é ele que tem chamado atenção nas coletivas.

Quem lê o CI já percebeu que gosto de ver a caracterização de figurino e maquiagem nos filmes, é isso que traz o personagem na cabeça do publico mesmo anos depois. Por isso, fiquei um pouco chocada com as proporções que a coisa levou: diretor é acusado de sexista, misógino, teve que explicar a escolha e até a Bryce Dallas Howard apareceu para dizer que a escolha também foi dela.

A questão é, as mulheres não tem representatividade no cinema, "Jurassic World" é um filme de ação, maz Claire é tudo menos uma heroína aventureira, como tivemos com a atlética Drª Ellie Sattler do primeiro longa, mas ela não é a mocinha que precisa ser ajudada. Acho que a birra contra os sapatos vem daqui (e abro aspas aqui, porque tem tantas cenas clichê herói tipo "o beijo depois do perigo", que acho que elas deveriam ser apontadas, não o vestuário).




(Estilo safári +  John Hammond = Claire)

April Ferry e Daniel Orlandi assinam a caracterização, mas até agora não vi entrevistas sobre o tema, talvez por medo de reação, mas na minha humilde opinião, é figurino e maquiagem primorosa, no tom da franquia. Claire é control freak, ocupada e precisa que todo esteja nos devidos lugares. Nada mais justo então que ela tenha cabelos lisos chapados, roupa branca impecável e um salto alto mesmo comandando um parque de diversões na costa rica - se divertir suja e faz bem, dizia o sabão em pó. Como ela não se diverte, ela é impecável naquele ambiente. Para comparação, o figurino do assistente engraçadão é muito mais tranquilo e relaxado, ou seja, é mais sobre Claire e menos sobre o ambiente.

Para completar, a roupa de Claire lembra muito o estilo safari antigo, e sabe quem usava o mesmíssimo estilo? John Hammond. O figurino parece meio caricato, mas o de Owen também é. Ele é um treinador ex-militar que se veste como o indiana jones sem necessidade alguma, já que o outro treinador interpretado por Omar Sy usa camisa havaiana,




(Antes e depois do dinossauro híbrido)

Com o passar do filme, Claire suja a roupa, perde parte dela, o cabelo ondula e ela se suja. Aprendeu uma lição, foi tentar resolver o problema do parque e ficou mais "humana" - tudo sem ser a mocinha que precisa ser salva (e que acaba salvando o dia no final). O sapato que fica significa que Claire aprendeu uma lição mas ainda é a mesma mulher lá do inicio do filme, e isso é genial. Ela não arrancou os sapatos tentando mudar para ajudar, ela se adaptou aos acontecimentos.

O cinema pede mulheres mais tridimensionais, e acho que Claire é um grande passo para elas. É um avanço do "mocinha precisa ser salva", porque ela é gente como a gente, nunca foi militar badass tipo o Owen e estava ali em grau de igualdade. Precisamos de mais protagonistas mulheres badass? Sim. Mas culpar a que não é e gritar que é sexismo não vai ajudar isso. Personagens tem personalidades, e a Claire do filme tem a dela, com salto e tudo.

E pra quem diz que correr de salto não é crível, vai matérias de corridas de salto alto pelo mundo. Não é saudável para os pés, mas existem mulheres que não conseguem usar outras coisas. Mulheres podem fazer o que quiserem, amigos, e se elas preferem correr - e bem - de scarpin, quem sou eu pra reclamar.

3 comentários:

  1. Não acho que a questão seja apenas o sapato. Na verdade a maioria das menções ao salto alto da personagem tem um teor mais humorístico - "e ela faz tudo no salto!!!"

    A questão aqui é Claire evolui de uma executiva fria, que não sabe lidar com crianças. O que é sim uma referência ao Dr. Alan Grant do primeiro filme, mas aplicado à uma personagem feminina inevitavelmente ganha uma conotação completamente diferente. A coisa piora quando no decorrer do filme ela evolui para uma personagem maternal, que elimina (literalmente, já que tem que matar uns dinos) seu trabalho da lista de prioridades, e agora pensa que o melhor caminho é criar uma família. Tudo isso enquanto vai ficando mais desnuda, mas sem nunca tirar o salto fetiche. Sacou?

    É um arco dramático de um filme dos anos 60. Como se não fosse possível, ser uma mulher dedicada à carreira e constituir uma família.

    Estou longe de ser daquelas que sai acusando diretores de sexismo à torto e à direito. Ainda mais quando a obra literária de Michael Crichton dá o mesmo mal tratamento à personagens femininos (Spilberg consertou isso no primeiro filme). E em Jurassic Word, humanos não são "o foco", mas sim os Dinossauros. Por isso, e outras razões adorei o filme.

    Entretanto tenho consciência do estereótipo feminino, entre outros apresentados ali. Não acho um grande problema sua presença desde que a gente reconheça, e se possível crie boas discussões como esta que você iniciou. Parabéns!

    Ó minha opinião do filme como um todo - http://goo.gl/yt5hAf

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    1. Sim! Te chamei pra discussão por isso. É muito legal saber que pessoas viram "filmes diferentes" em um mesmo roteiro. Eu enxerguei de outra forma muito pela voz ativa que ela tem durante todo o longa, sinto que a família que ela deixou de lado tá menos ligada ao "mulher não pode ter os dois mundos" e mais "pessoa fria esteriótipo que fica consciente das coisas que está perdendo".

      PS: valeu por deixar seu link, deixa a coisa toda ainda mais rica.

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    2. Então talvez você a tenha visto apenas como "uma pessoa" independente de gênero! É difícil fazer isso...

      Essa discussão ficou legal, vou postar lá no meu face! ;)
      Ok, esse é momento jabá mesmo, hehehe - http://goo.gl/yIfwaA

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